John C. Pierrakos, M.D., Uma autobiografia curta ©

Eu nasci na Grécia no dia 8 de fevereiro de 1921. Minha terra natal, Neon Oitylon, é uma pequena vila no Mediterrâneo com praias arenosas e altas montanhas plantadas com bosques de azeitona. Era um lugar tranqüilo e bonito, mas era também uma terra de desentendimentos, uma terra de desunião. O centro dos desentendimentos era a questão da sexualidade. Os homens defendiam a “honra” de suas mulheres matando uns aos outros. Nós chamamos isso de “machismo” e na Grécia eles chamam de “philotimo.” Crescendo naquela cultura sentia uma força nefasta sobre mim; a Igreja Ortodoxa Grega condenava a sexualidade – Você deveria sacrificar a carne para elevar o espírito.
Eu era rodeado por mulheres: minha mãe, três irmãs mais velhas, primas e tias. Elas eram amorosas e cuidadosas e também algumas de suas necessidades batiam com as minhas – com isso me tornei dependente delas. Meu pai era ausente, sempre viajando para a Europa a negócios. Ele voltava pra casa depois de alguns meses, por alguns dias. Ele era o patriarca, muito sério e disciplinado; nunca brincou comigo ou disse que me amava. Eu sentia medo dele, medo que ele descobrisse o meu interesse sexual por algumas garotas a minha volta. Minha mãe era exatamente o oposto: ela me abraçava e expressava seu amor. Ela me chamava de “effendi,” uma palavra turca que significa mestre. Esse era um termo comum de carinho para o primeiro filho homem. Ela não tinha muita cultura, mas seu amor me deu segurança e, afinal, a habilidade de expressar livremente o meu amor por uma mulher.
Nós nos mudamos para Atenas quando eu tinha nove anos. Foi um choque sair de uma vila inocente para a vida na cidade. Lá não havia natureza, mar, pedras sobre as quais eu pudesse brincar campos para passear. Senti-me preso: estava tão furioso que chutava latas em todo o caminho para a escola. Jogava futebol com a mesma intensidade – chutava a bola direto de um gol ao outro.
Em 1939 a Europa estava se preparando para a guerra. Minha irmã e seu marido moravam na cidade de Nova York. Ela me convidou para ir morar com ela—eu tinha dezoito anos e ela queria me proteger. Logo depois da chegada em Nova York entrei na faculdade Columbia. Fiz o vestibular em francês porque mal sabia falar inglês. Quando descobri que os primos da Grécia estavam lutando na guerra, fui voluntário para voltar, mas o meu pedido nunca chegou a ser processado porque àquela altura tudo já estava em uma desordem sem esperança.
Na Columbia tinha que estudar duas vezes mais que os outros alunos, para alcançá-los no inglês. Comparando com a vida na Grécia, a liberdade aqui foi um choque. Em 1944, ainda estudando medicina, fui recrutado pelo Exército e me tornei um cidadão americano do dia para a noite! Depois que me formei decidi permanecer em Nova York (ao invés de voltar para a Grécia) e estudar para o meu Ph.D. em psiquiatria—não havia nada que me oferecesse uma visão tão ampla da vida .

Eu me lembro da primeira vez em que me senti excitado com esse trabalho: eu tinha quinze anos, ainda ia para a escola em Atenas e tinha lido um artigo de uma revista sobre dois homens — Freud que tinha descoberto o inconsciente e Reich que tinha descoberto a “energia da vida.” O nome Reich não significava nada pra mim mas a minha curiosidade ficou atiçada: o que será essa energia da vida ? Anos depois, na cidade de Nova York, uma amiga me perguntou, “Você já ouviu falar de Wilhelm Reich?” Eu respondi, “Não.” Ela me sugeriu que lesse A função do orgasmo. Eu li, e pensei, “Nossa, isso é ótimo! Isso é um entendimento da vida em sua fonte.” Depois de conversarmos, ela me sugeriu que trabalhasse com ele. Respondi, “Quem, eu? Quem sou eu para trabalhar com esse gênio??”

 

Finalmente reuni coragem e liguei para Reich; ele me tomou como cliente. E me levou ao inferno! Ele ridicularizou o bigode e o terno feito por um alfaiate que eu vinha usando naqueles dias. Quando eu disse que queria ver a energia orgônica, ele me levou para o seu laboratório no porão e me pôs no acumulador de orgone. Eu vi coisas estranhas—movimentos em espiral, raios e massas como neblinas — Pensei que havia algo de errado com os meus olhos; estava decepcionado. Meu treinamento científico na escola de medicina não tinha me preparado para tal experiência!
Continuei trabalhando com ele mesmo me sentindo oprimido por sua autoridade, sua cara grande, sua voz poderosa—como a do meu pai. Eu me sentia inferior; ele me provocava para trazer à tona minha raiva, minhas questões com a autoridade masculina. Nas sessões eu vestia apenas um short e ficava deitado no sofá. Ele me dizia “Você não está respirando!” É claro que eu não estava respirando—Eu estava duro de medo. Então ele me perguntava sobre a minha vida sexual enquanto observava o meu corpo. Ocasionalmente ele colocava a mão na área do bloqueio, meu abdome ou peito—e dizia, “Respire rápido!” Ou me fazia mover a energia chutando ou balançando os meus braços. Nesse estágio do nosso trabalho ele não lidava com as questões da minha personalidade; ele estava apenas preocupado com movimentar a minha energia.
No final dos anos quarenta, Reich foi considerado uma ameaça pela Sociedade Americana de psiquiatria e outras. Eles pressionaram a FDA (organismo federal de controle de alimentos e medicamentos) para prendê-lo por transportar acumuladores de orgone através das fronteiras dos estados. Apesar de ser um membro do grupo e de acreditar na essência do seu trabalho, percebi que tanto ele quanto seus seguidores não estavam tomando as devidas providências quanto a esse problema. Eu não queria comprometer minha licença médica por uma causa que não era sustentável, então eu decidi me retirar. Chateou-me profundamente ter que sair naquele momento, porque Reich tinha tido um papel crucial na minha vida; ele tinha o fogo consigo — e foi nisto que me conectei com ele.

 

Eu trabalhei com ele por dois anos antes de perceber que ele era o mesmo sobre o qual eu tinha lido na Grécia quando tinha quinze anos.
Depois de muitos anos como psiquiatra em um hospital de Nova York, me demiti e comecei uma prática privada em Greenwich Village, aonde eventualmente tinha a companhia de Alexander Lowen, que eu tinha conhecido quando trabalhava com Reich. Eu já estava casado e tinha duas filhas.

 

Nos doze anos seguintes Lowen e eu desenvolvemos o que veio a ser chamado de Bioenergética. Ela era baseada no que nós tínhamos aprendido sobre energia e estruturas de defesa de caráter em nosso trabalho com Reich. Era muito emocionante experimentar com novas técnicas e conceitos. Nós trabalhamos corporalmente dos pés para cima e da cabeça para baixo, enraizando a personalidade tanto energeticamente quanto mentalmente.

 

À medida que o tempo passava, eu comecei a sentir que alguma coisa estava faltando na obra da minha vida. Meu casamento não estava indo a lugar nenhum – ele nunca desabrochou como uma flor completa, então nos separamos e depois nos divorciamos.

 

Por volta de 1964 um paciente me deu a transcrição de uma palestra de Eva Broch, um canal espiritual que, desde 1957, vinha dando palestras (enquanto em transe) sobre os aspectos espirituais do crescimento pessoal: a conexão do ego e da consciência universal: Amor, Eros e Sexualidade; unidade e dualidade e tópicos relacionados. Ela havia criado uma comunidade (Pathwork – o caminho da autotransformação) que estudava e praticava essas idéias. Depois de ler sua palestra eu sabia que precisava encontrá-la, porque ela estava transmitindo elementos que eu sentia que estavam faltando no meu trabalho.
Em nosso primeiro encontro seus olhos negros mandavam feixes de alma diretamente aos meus; ela tinha uma beleza vibrante, um ser magnífico. Ela era uma artista e uma dançarina. Rapidamente nós descobrimos a natureza complementar dos nossos trabalhos e ela começou a me dar sessões com o guia. Não eram terapia—iam muito além disso. O guia avaliava os meus esforços criativos. Através dela ele indicava modos para que eu pudesse integrar e personalizar minha luta, meu trabalho.

Era muito excitante e, claro, nós nos apaixonamos.
Alguns anos depois, Eva e eu estávamos casados e eu deixei a Bioenergética para desenvolver meu trabalho em nova direção. Aqueles anos com Eva foram os mais felizes de minha vida.

 

O nosso trabalho só nos aproximava; ela despertava o meu interesse na dimensão espiritual da consciência. Eu trouxe para o Pathwork a dimensão da energia—como ela conecta o corpo e a personalidade com o self espiritual. Essa integração levou a um florescimento do nosso trabalho e nós o praticamos até a morte de Eva em 1979. Nosso amor, a maneira que nós cuidávamos um do outro, era precioso. Havia uma conexão profunda, entrega total. Ela era a minha alma gêmea, e eu era a dela.

 

Disso tudo–Psiquiatria, Reich, Bioenergética, o guia de Eva, Pathwork—veio a Core Energetics. O trabalho com Eva me levou a substituir a ênfase dada no meu trabalho, das defesas para o self criativo, espiritual. Agora, como parto do amor e do respeito profundo pelas pessoas, as minhas intervenções conseguem atravessar as defesas de uma maneira rápida e clara. Sei, dentro do meu coração, o que estou fazendo e porque estou fazendo. Meu ego não está no trabalho da maneira que estava antes. Continuo trabalhando com as minhas questões em relação à autoridade, invisto em me libertar para ser mais ousado.

 

Eu anseio ver a Core Energetics desabrochar de muitas outras maneiras para ajudar a unificar a divisão entre psicologia, religião, ciência e vida pessoal. Meu trabalho é alcançar a profundidade da entidade humana. Ajudar a pessoa a se abrir, se transformar—mover-se!

Extraído do livro Eros, Amor e Sexualidade de John C. Pierrakos,
copyright © 1997, editora LifeRhythm, Caixa postal 806, Mendocino, CA 95460.

 

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